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Kenpo vs Jeet Kune Do: A Batalha das Artes

abr 11, 2015 | Sensei Helio Greca | Artigos | No Comments

Kenpo  vs Jeet Kune Do

A Batalha das Artes

Criativo, inovador, prático, eficiente, efetivo, não tradicional etc. São todas palavras usadas para descrever Ed Parker, fundador do sistema de Kenpo mais praticado no mundo, e a Bruce Lee, o maior ícone das artes marciais de todos os tempos e fundador do Jeet Kune Do. Estes dois grandes mestres tem antecedentes drasticamente diferentes nas artes marciais e diferentes perspectivas quanto ao sistema de treinamento. De forma independente, ambos criaram sistemas de combate que estimulam e favorecem a inovação criativa e espontânea dos movimentos básicos.

Bruce Lee, provavelmente um dos artistas marciais mais influentes de todos os tempos, é recordado por seus métodos de treinamento, teorias e aplicações únicas no mundo das artes marciais. Bruce Lee criticava severamente os métodos de treinamento tradicionais, como por exemplo, formas coreografadas de defesa pessoal. Seu treinamento inicial foi com o Wing Chun Kung Fu (que ironicamente inclui uma certa quantidade de formas) e, entre seus antecedentes em outros sistemas estão vários outros estilos de Kung Fu, esgrima, judo, jiu jitsu, boxe, boxe ocidental. Todo esse acúmulo de conhecimento foi à base para a formação de suas teorias.

Bruce Lee utilizava o método de “acerto e erro” nos seus treinamentos, absorvendo o que é útil a medida que extraia as mais eficientes técnicas e princípios de um estilo em particular e adaptava para seu próprio uso (este método é contrário para aqueles que julgam estar praticando Jeet Kune do, porém nunca aprendem nada além de movimentos básicos de vários sistemas, negligenciando os princípios completamente).

A filosofia da arte de Bruce Lee não era somente “se funciona, use”.Mas também “se funciona para VOCÊ, use”. Porque o que pode ser efetivo para um pode não ser prático para outro. Bruce Lee também acreditava que o nível mais alto de habilidade dentro das artes marciais era “a reação espontânea”, isto é, reagir a um estímulo sem pensamento consciente. Muito dos exercícios desenvolvidos por ele ou vindos de outros sistemas, como o chi sao e outros exercícios de sensibilidade, o boneco de madeira etc. Todos estes exercícios têm como finalidade estimular a habilidade de reflexos espontâneos e subconscientes.

Dentro do Jeet Kune Do se ensinam técnicas efetivas que estão individualizadas e se organizam dentro dos quatro aspectos do combate: socos, chutes, agarramento e lutar.

As teorias de Lee também envolviam a habilidade de caminhar de um aspecto ao outro dentro do sistema, ou de um tópico a outro e voltar ao princípio. Sem uma estruturação fixa de sistema, trabalhando de acordo com as habilidades individuais de cada pessoa de acordo com resultados distintos obtidos em combate.

Ed Parker, conhecido como o pai do Karate nos Estados Unidos é melhor descrito como um inovador. Utilizou-se de métodos e conceitos de treinamentos tradicionais para formar um sistema de combate prático e eficiente. Seus antecedentes dentro das artes marciais consistiam no Kenpo tradicional, judo, boxe, Kung Fu Shaolin e brigas de rua no Havaí. Parker via o treinamento como uma progressão natural. Acreditava que os praticantes tinham de passar por certos níveis de treinamento e experiência antes de conseguir o mais alto nível em habilidades de combate.

Parker acreditava, da mesma forma que Lee, que o nível mais alto de condicionamento para o combate era a reação espontânea. Parker descrevia três etapas de treinamento: a etapa primitiva, quando os movimentos básicos são aprendidos; a etapa mecânica, quando os movimentos básicos são dominados e aplicados com eficiência; e a etapa espontânea, quando a liberdade criativa se evoluciona.

Quando um artista marcial começa a reagir a ataques sem pensamento consciente, atingiu o nível espontâneo de treinamento. O tempo que se leva para atingir este objetivo varia de indivíduo para individuo e esta muito relacionado ao tipo de treinamento realizado.

Mesmo que Ed Parker e Bruce Lee estivessem de acordo com o objetivo final do treinamento nas artes marciais, os meios utilizados para conseguir esse alto nível de reação eram diferentes. Bruce Lee preferia um caminho caracterizado pela liberdade, Ed Parker acreditava no caminho estruturado.

Ainda que Bruce Lee promovesse a liberdade dentro do treinamento, ele não desencorajava aos estudantes praticarem certos movimentos básicos. Lee simplesmente tratava de libertar os praticantes das limitações que um estilo poderia representar. Ele ensinava conceitos e princípios específicos para que fossem usados individualmente da forma mais conveniente. Lee se deu conta de que o biotipo de cada indivíduo geralmente ditava que tipo de movimentos eram mais práticos e usuais. Ao aprender vários princípios, e não necessariamente técnicas específicas, os estudantes podiam conseguir o objetivo de reagir espontaneamente a um ataque.

O caminho estruturado de Parker usa um sistema altamente sofisticado de técnicas para ensinar conceitos e princípios. Desta forma, a aprendizagem dos estudantes é planejada, se adaptando as diferenças individuais, até que o movimento físico e todos os conceitos sejam dominados. Neste ponto a liberdade criativa é alcançada e os princípios são realizados de uma forma espontânea que flui livremente.

Ambos os caminhos, liberdade e estrutura têm seus pontos favoráveis e contrários. O caminho escolhido por Lee pode criar estudantes que, compreendem a ênfase da individualidade, mas não tem habilidades físicas necessárias, já que nunca desenvolveram uma base sólida. Entendem os conceitos e princípios, porém não podem aplica-los apropriadamente devido a baixa habilidade física.

Os estudantes que seguem a via estruturada de Parker algumas vezes se tornam tão fechados em si próprios, que na busca para executar uma técnica perfeitamente, limitam a espontaneidade totalmente agindo de forma mecânica, anulando assim a aplicação criativa dos conceitos. Estes estudantes podem fazer certas técnicas específicas, porém não entendem os princípios subjacentes envolvidos em sua execução.

O nível espontâneo de treinamento pode ser alcançado usando tanto a metodologia de Parker quanto a de Lee. A ideia é minimizar o tempo que se leva para alcançar este tipo de habilidade. Não se pode ser alcançado aprendendo somente movimentos e destreza ou somente princípios e conceitos. Muitos instrutores não tem uma compreensão dos princípios das técnicas marciais. Ensinam movimentos específicos para uma grande quantidade de ataques distintos, porém nunca ensinam as idéias originais das quais as técnicas e movimentos foram concebidos. Ensinar artes marciais desta forma pode levar os praticantes a parecerem com autômatos que permanecem estáticos em seu treinamento.

Ed Parker e Bruce Lee se deram conta disto, e utilizaram conceitos e princípios específicos para estimular os estudantes a continuarem sempre desenvolvendo suas habilidades a níveis mais avançados. Estes princípios dão ao estudante um entendimento profundo da mecânica e da aplicação do seu estilo, e lhes permite alcançar um nível de reação espontânea e desenvolver sua habilidade para inovar e criar dentro de sua própria arte.

Não importa o caminho escolhido, a liberdade do Jeet Kune Do de Bruce Lee, ou a estrutura do Kenpo de Ed Parker, ambos os estudantes podem utilizar as artes marciais para refinar, inovar e progredir até seu mais alto potencial.

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